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09 fevereiro, 2017

MUDAMOS O NOME DO BLOG



O homem, enquanto ser social, é também um produto de sua era, de seu tempo, de sua civilização. Tudo em sua vida, assim como tudo na natureza, tem seu ciclo, sua função e sua duração. Nada é e nem poderia ser estático na vida do ser humano. A tendência é mudar sempre, crescer, aprimorar, evoluir.

Percebemos que, nos últimos e recentes anos, a natureza dos problemas enfrentados pelas pessoas que professam a fé cristã (e mesmo as de outras crenças), têm, mesmo que seja lá nas profundezas da sombra ou do inconsciente, uma matiz que envolve conflitos de ordem religiosa. Em outras palavras: muitas pessoas estão tendo diferentes tipos de conflitos de fé, que aqui chamaremos de "conflitos religiosos",

Evidente que, em função disso, este blog, antes conhecido como "Psicoterapeuta Cristão", também precisou mudar a fim de adequar-se a esses novos e bastante espinhosos dias. Assim, decidimos mudar o seu título para "O PSICANALISTA E A RELIGIÃO", a fim de podermos alargar um pouco mais, as fronteiras de nossas reflexões, procurando também dar a elas, um caráter mais aprofundado e mais coerente com a visão, ou, se preferirem, as visões (ou cosmovisões) que a Psicanálise pode oferecer sobre o tema.

Esperamos contar com sensatez de nossos leitores de diferentes partes do mundo (que deste o início têm nos prestigiado) para que reflitam sobre a natureza desta adequação; ao mesmo tempo em que firmamos o nosso compromisso de procurar seguir ajudando as pessoas que enfrentam questões menores ou até de natureza existencial nesta área.

15 novembro, 2011

CARTA A UMA QUERIDA AMIGA QUE RESOLVEU FAZER PSICOTERAPIA

 

terapia

“Fiquei contente ao saber que você está fazendo psicoterapia. Parece-me que você decidiu "passar a vida a limpo"e, pelo jeito, já descobriu algumas coisas importantes.

Quero lhe dizer que, fazer terapia quase nunca deixa de nos trazer coisas tristes, pois, ela nos revela "aquele lado feio e negro" da nossa vida que nunca quisemos ou pudemos enxergar. Ela nos mostra quantos trastes inúteis acumulamos nos "porões" da nossa alma durante anos e anos.

Mas esse "encontro com o próprio eu", por mais sofrido que seja, é compensador, acredite.

Chega uma hora na vida em que não desejamos mais mentiras, não queremos mais fantasias. É o momento de enfrentarmos os nossos próprios fantasmas e de ganharmos forças para vencê-los e seguir em frente.

Sabe, os budistas dizem que a infelicidade dos homens existe porque eles são vítimas do "desejo de ignorar". A psicanálise, por outro caminho, descobriu que eles têm o "desejo de não querer saber".

Por isso, existe esse enfrentamento na terapia: temos que vencer as resistências e conhecer a verdade sobre nós mesmos. Aí, num sentido psicológico, cumprem-se as palavras de Jesus:"E conhecereis a verdade e a verdade vos libertará".

E já que me referi à verdade ou às verdades, deixe-me dizer-lhe mais uma que, por certo você já descobriu, mas, possivelmente, ainda não "lhe caiu a ficha". Você me diz, no e-mail, que quer ter uma vida sólida (você acha que somente uma "vida sólida" a fará feliz).

Mas...Rubem Alves há muito tempo escreveu (e eu concordo com ele) que "vida sólida" não existe! Ele diz que nós acreditamos que a nossa vida seja forte como uma esfera de aço. Na verdade, porém, ela é frágil como uma bolha de sabão! Basta um ventinho mais forte e essa bolha estoura.

Isso é revelador porque nos dá coragem de fazer o que acreditávamos não poder! Ensina-nos a viver pequenas coisas como grandes feitos e a valorizar cada aparentemente "pequena" conquista. Mostra-nos que devemos parar de perseguir "o ótimo" que, como a linha do horizonte, está sempre longe; e a aceitarmos "o bom", que já está pertinho de nós.

Rubem Alves também nos ensina que devemos ser corajosos como a aranha. A aranha tem coragem de lançar-se no abismo, confiando apenas num fio! Sim, porque ela acredita no fio de sua própria teia, ela lança-se para mais fundo e para mais longe, mesmo em meio à escuridão.

O  Almir Klink, entrevistado pelo "Fantástico" deste último domingo, deixou claro que ele não precisa de dinheiro, não precisa de propriedades, não precisa de "status"não precisa de "poder" para ser feliz. Ele só precisa ser livre para viajar (entenda "velejar") e, velejando, ele atravessou, sozinho, os oceanos, chegando ao lugar que ele mais gosta: a Antártida.

Que tal você discutir com seu/sua terapeuta qual seria a "sua Antártida"?

Torço por seu crescimento e felicidade!”

Tony Ayres

04 janeiro, 2011

O Setting Analítico

Uma das preocupações mais encontradas nos terapeutas que iniciam a carreira é com o chamado "setting analítico" que, em última instância abrange desde a secretária e o telefone até a disposição do consultório (com divã e poltrona, sem divã e com poltrona, com mesa, sem mesa, etc).

Não diríamos que tal preocupação seja infundada, mas, sem dúvida, é superdimensionada.

Por que dizemos isso?

Porque uma tal preocupação pode chamar a atenção do analisando para aquilo que realmente não é importante, acabando por induzir a transferências negativas absolutamente desnecessárias, ainda no começo da análise.

Na verdade, o setting analítico, para ser bom, precisa ser como um juiz de futebol: quanto menos aparecer, melhor. Se passar despercebido, ótimo.

O consultório, setting analítico, local da análise deve isolar o mundo de fora para ser bom; mas não deve confinar o mundo de dentro como um mosteiro, já que as vivências dentro dele deverão repercutir fora dele.

Dentro dessa ótica, o setting deverá ser apenas um local propício para servir como campo analítico dentro do qual ocorre o entrejogo de ações, sentimentos e representações que façam fluir a análise; não dificultá-la.

O que vale mesmo é a sintonia dos inconscientes do analista e do analisando, sem interferências do setting.

Daí a razão de não se superdimensionar a sua importância.

Tony Ayres

30 junho, 2010

ENTRE A PSICANÁLISE E O CRISTIANISMO. VALE A PENA ISSO?

pensadores Desde que me tornei um psicanalista e, antes disso, quando era ainda um estudante, pude perceber que, a despeito de ser considerada uma ciência, a Psicanálise está longe de ser uma panacéia para entender e explicar todo o intricado processo que envolve o ser humano e seus problemas.

Na verdade, a Psicanálise é muito pequena diante do mistério da vida física; quanto mais se se  tratar daquela que consideramos a vida espiritual. Freud debateu-se com ela a vida toda, que não foi curta (viveu entre 1856 e 1939) e reformulou muitas vezes suas teorias, dadas  as inúmeras incertezas que pairavam sempre em seu espírito.

Digo isso porque, infelizmente, venho percebendo que alguns cristãos, ao descobrirem a Psicanálise, (mesmo a grosso modo) ficaram por ela tão fascinados que, aparentemente, tornaram-se céticos em sua fé; ou ateus como o seu descobridor (Freud).

Ora, essa fascinação pode ser entendida, uma vez que, lidando com o inconsciente, a Psicanálise lida também com o recalcado ou com o reprimido. Quando ela logra tornar consciente os conteúdos mentais inconscientes, promove como consequência, a liberação dos recalques e das repressões – o que, via de regra, é positivo, desde que a pessoa em questão saiba aceitar a sua nova realidade com equilíbrio e maturidade; e não com a mentalidade daquele que “achou o tesouro” no fim do arco-íris.

Creio que é exatamente nesse ponto onde mora a raiz do problema pois, por uma “falha piedosa”,a igreja chamada “evangélica” exagerou negativamente a ênfase na sua herança puritana, fazendo com que crianças e novos convertidos do século XX fossem doutrinados e vivessem uma vida de acordo com o modelo calvinista pós-medieval; o que provocou um surto de repressão de proporções endêmicas, não mais possível de ser suportado em pleno mundo pós-moderno da primeira década do século XXI.

Ora, com a popularização da Psicanálise, da Psicologia e da própria Psiquiatria (que foram os saberes nos quais os cristãos emocionalmente doentes foram buscar ajuda), os recalques vieram à tona como uma panela de pressão que explodiu; o que fez com que muitos deles se voltassem contra as suas igrejas. O passo seguinte foi rejeitar a Bíblia e seus ensinamentos e o abraçar da Psicanálise como a “ciência que promoveu a minha emancipação”.

É claro que essa atitude é um equívoco, uma vez que o indivíduo “liberto” das amarras da repressão religiosa reprime toda a sua vida anterior, caindo numa armadilha e trocando seis por meia dúzia, sem perceber. Ninguém pode ser feliz dessa maneira.

É preciso que essas pessoas repensem o que estão fazendo para, como diz Caio Fábio, “não abandonarem o Jesus ressurreto”, e não se deixarem enganar.

Freud descobriu a Psicanálise. E daí? Ela é só mais uma linha epistemológica.

Também a Psicologia Profunda de Carl G. Jung; a Epistemologia Genética, de Jean Piaget; a Psicologia do Desenvolvimento Individual, de Alfred Adler; a Fenomenologia, de Martin Heidegger; a Psicologia Existencial, de Rollo May e a Logoterapia, de Viktor Frankl, entre muitas, são algumas outras vertentes espistêmicas.

Não vale a pena trocar Jesus Cristo por nenhuma delas.

NEle, sob cujo poder todas as coisas permanecem.

Antônio Ayres

07 junho, 2010

SAIBA SE VOCÊ SOFRE DE DISTIMIA

DISTIMIA A distimia caracteriza o indivíduo que possui uma tristeza ou um  mau humor constantes. De uma forma mais clara, os traços essenciais da distimia são o estado depressivo leve e prolongado, além de outros sintomas em geral, sempre presentes.

Pelos padrões psiquiátricos americanos são necessários dois anos de período contínuo predominantemente depressivo para os adultos e um ano para as crianças sendo que para elas o humor, com mais frequência, é irritável ao invés de depressivo.

Para se fazer o diagnóstico diferencial  da distimia é necessário  excluir fases de exaltação do humor como a mania ou a hipomania (estado leve de exaltação do humor), assim como a depressão maior.

Causas externas podem também anular o diagnóstico como as depressões causadas por substâncias exógenas. Durante essa fase de dois anos o paciente não deverá ter passado por um período superior a dois meses sem os sintomas depressivos.

Além disso, para preencher o diagnóstico de depressão os pacientes, afora os  sentimentos de tristeza prolongados precisam apresentar dois dos seguintes sintomas:

  • Falta de apetite ou apetite em excesso
  • Insônia ou hipersonia
  • Falta de energia ou fadiga
  • Baixa da auto-estima
  • Dificuldade de concentrar-se ou tomar decisões
  • Sentimento de falta de esperança

Outras Características

Estudos têm demonstrado que os sentimentos de inadequação e de desconforto são  muito comuns, a generalizada perda de prazer (anedonia) ou interesse também, e o isolamento social manifestado por querer ficar só em casa, sem receber visitas ou atender ao telefone nas fases piores são constantes.

Os pacientes reconhecem sua inconveniência quanto à rejeição social, contudo não são capazes de se controlar. Usualmente os parentes exigem deles uma mudança positiva, mas isso não é possível para quem está deprimido, a não ser com o uso de medicação adequada.

A irritabilidade contudo e impaciência são sintomas muito comuns e incomodam ao próprio paciente. A capacidade laborativa fica prejudicada bem como a agilidade mental. Assim como na depressão, na distimia também há alteração do apetite, do sono e também da psicomotricidade.

O fato de uma pessoa ter distimia não impede que ela desenvolva depressão: nesses casos denominamos a ocorrência de depressão dupla e quando acontece o paciente procura o psiquiatra.

Como a distimia não é suficiente para impedir o rendimento, apenas prejudicando-o, as pessoas não costumam ir ao médico, mas quando não conseguem fazer mais nada direito, vão ao médico e descobrem que têm distimia também.

Os pacientes que sofreram de distimia desde a infância ou adolescência tendem a acreditar que esse estado de humor é natural deles, faz parte do seu jeito de ser e por isso não procuram um médico, afinal, conseguem viver quase normalmente.

Tratamento
Embora o tratamento com antidepressivos tricíclicos nunca se mostrarasse satisfatório, as novas gerações de antidepressivos (ISRS’s), no entanto, vem apresentando melhores resultados no uso prolongado. Também, antipressivos atípicos são uma boa perspesctiva.

Usa-se, atualmente, a fluoxetina, a paroxetina, a sertralina e a mirtazapina.

Antônio T. Ayres

21 março, 2010

A INFÂNCIA, O PROTÓTIPO DE TODA UMA VIDA

tom-cruise-like-father-like-son Poucas coisas se revelam tão verdadeiras como o conhecido ditado que diz: "O menino é o protótipo do homem". Essa é uma verdade incontestável na história da humanidade como um todo, como também o é na história de cada um e único indivíduo.

Freud descobriu e provou isso através das etapas que constituem a  a longa fase do desenvolvimento psicossexual do ser humano, durante as quais, qualquer erro ou deslize pode ter implicações por toda a existência.

Mas, milênios antes de Freud, o grande sábio Salomão já havia ensinado: "Educa a criança no caminho em que deve andar; e até quando envelhecer não se desviará dele" (Prov. 22.6). A  Psicanálise veio corroborar a veracidade dessas palavras, de uma maneira irrefutável.

ALGUNS EXEMPLOS

Quando você encontrar uma pessoa bondosa, sensata, justa e equilibrada, dê uma olhada em seus pais. Imediatamente você compreenderá o porquê desse modo de ser: os pais serviram como modelo positivo e nutritivo para os filhos.

Faça a mesma coisa com outra pessoa. Alguém que seja irresponsável, pouco dado ao trabalho, briguento, insatisfeito, crítico, etc. Procure olhar para sua família de origem, Se ela existiu, provavelmente foi o nascedouro de comportamentos tão desairosos.

A única coisa que NÃO podemos fazer, nesses casos, é generalizar. Isso porque exceções sempre existiram e sempre existirão. Mas, como o próprio nome diz, são exceções. A regra é a de que a qualidade da família de origem, das figuras parentais ou de seus substitutos sãom determinantes para a formação da personalidade do indivíduo.

UMA METÁFORA MUSICAL

Façamos uma analogia do que dissemos acima com as músicas clássicas do século XVIII. Naquela época, os compositores utilizavam uma forma musical chamada sonata. Os primeiros movimentos das sinfonias de Mozart e Beethoven são exemplos de sonatas.

Na sonata, todos os temas do movimento aparecem no início, no começo. Em todo o restante do movimento, o compositor desenvolve e amplia esses temas, criando variações sobre cada um deles e recapitulando-os. Esse é um poderoso esquema que, talvez explique a razão pela qual a música daquele período provavelmente sempre será tocada.

Pois bem, podemos supor que a vida de cada um de nós é como uma sonata. Todos os temas dos nossos relacionamentos e da qualidade deles aparecem no começo (na infância).

A nossa vida adulta (toda a nossa vida) consistirá nas variações, evoluções e recapitulações desses temas.

E DAÍ, O QUE FAÇO COM ESSA INFORMAÇÃO?

Em primeiro lugar, lembre-se de que, se você está satisfeito(a) com a pessoa que é, seus pais têm grande responsabilidade nisso e, portanto, você também tem grande responsabilidade no que seu filho ou sua filha será! E agradeça a Deus por isso.

Lembre-se de que sua influência sobre seus filhos farão deles as pessoas que serão. Portanto, se seu filho ou sua filha escolher para companheiro de casamento alguém que que seja um drogado ou um alcoólatra; ou uma pessoa decente e de bem, você foi determinante nessa escolha.

Em segundo e último lugar, se você, pessoalmente, foi a vítima de uma educação pouco saudável ou cresceu numa família disfuncional, lembre-se de que destino não existe.

Você pode mudar o curso de sua vida, dependendo de Deus e assumindo o compromisso por mudar a si mesmo, tomando nas mãos a responsabilidade pela construção de sua própria história.

Tony Ayres

 

06 julho, 2009

Por que o legalismo é perigoso?

moises As considerações que fazemos, neste post, têm base na psicologia profunda de C. G. Jung. Portanto, consideraremos, para efeito de entendimento, a palavra "legalismo" (para nós, cristão, excesso da lei mosaica), como diferente de "moral" (entendida, para todas as pessoas, como aplicação de princípios éticos-morais, adotados por uma sociedade).

Quero dizer, com isso, que "legalismo" e "moral" não vêm a ser uma só e mesma coisa, também dentro da cultura cristã evangélica.

O Engano Que Os Cristãos Cometem

Iniciando nossa argumentação, devemos deixar claro que o engano e a confusão que nós, cristão, muitas vezes, impensadamente, cometemos, é imaginar que a moral foi dada a nós e a todos os homens, pelas tábuas da lei, que Moisés trouxe do Monte Sinai.

Aquelas tábuas da lei e os mandamentos nela contidos, foram dados ao povo hebreu, à nação israelita, ao povo eleito de Deus, como um sinal visível, no deserto, em primeira mão.

Nós os recebemos depois, na forma do ensinamento dos dez mandamentos que, evidentemente, valem sim, para nós, assim como valem para os judeus.

Onde Reside o Engano, Então?

O engano está em confundir a Lei com o sentimento moral, comum a todo ser humano.

Paulo disse que não conheceríamos o pecado, se não houvesse a Lei e isso é verdadeiro.

No entanto, apesar de a Lei ser a Lei de Deus, explicitamente manifestada através dos dez mandamentos, existe um sentimento moral que já nasce com todos os homens e faz parte de sua psiquê.

A psicologia, a sociologia e a antropologia confirmam que todos os povos, de todas as culturas e de todas as religiões (até aquelas das mais primitivas civilizações, nas mais remotas ilhas) nascem com um sentimento moral, manifestado sob a forma de um sentimento religioso, mesmo que o "deus" que veneram sejam um totem, um ídolo, o fogo, o sol, a lua ou as estrelas.

Esses povos nunca chegaram a conhecer o decálogo de Moisés e os que chegaram, tinham a sua religiosidade manifesta muito antes disso.

E Onde Reside o Perigo, Então?

O perigo reside no fato (de consequências nefastas, infelizmente) de que os cristãos exageradamente legalistas, ao privilegiarem o legalismo, recalcam para o inconsciente, todo o seu sentimento moral-religioso inato.

Quando isso acontece, toda a sua "fé" e todo o seu "discurso piedoso" passam a ser sustentados exclusivamente pelo legalismo exagerado, extremamente frágil (pois constitui apenas uma casca) para resistir às tentações.

Essa é a razão pela qual, tantas e tantas vezes, testemunhamos aquelas pessoas mais defensoras de uma "pretensa santidade", através do legalismo exagerado, caírem nos mais torpes e mais rasteiros pecados.

E as Consequências Acabam Aí?

Infelizmente, não, uma vez que, segundo Jung, o homem deve aprender a conviver e a aceitar o seu lado mais negro (que ele, em sua psicologia, chama de sombra.

Mesmo os cristãos mais sinceramente convertidos, continuam sendo pecadores e possuem, portanto, a sua sombra, com a qual devem aprender a conviver pacificamente.

Uma prova disso é que, quem quer que leia atentamente os ensinos paulinos, perceberá que o apóstolo Paulo nunca deixou de trazer dentro dele o velho Saulo de Tarso, mas houve uma harmonia entre os "dois", uma vez que, pela Graça, Paulo não negou, mas absorveu em sua personalidade, o antigo Saulo.

O que não acontece com os cristãos legalistas extremados. Estes, ao invés de integrarem o velho Adão – o seu lado sombra – preferem renegá-lo, recalcando-o para o inconsciente.

Os Resultados

O primeiro deles é aquela fragilidade moral, sobre a qual já falamos. O legalista acha-se "santo", vê-se como "piedoso", acusa e coloca na cadeira dos réus a seus irmãos, com a maior facilidade.

No entanto, o seu coração está repleto das fantasias mais imorais imagináveis, a sua mente está repleta das mais sórdidas perversões, os seus pensamentos, quase sempre, são de sensualidade e luxúria.

As condenações que fazem aos demais são projeções de suas próprias condenações, que não suportariam admitir.

A Lei dos Opostos

Em seguida, em algum momento de suas vidas, acontece a Lei dos Opostos, ou Lei dos Contrários, no dizer de Jung. De repente, de uma forma surpreendente, passam para o extremo oposto.

Um exemplo inocente é o caso de um pastor que conheci que, numa Copa do Mundo abominava o futebol e defendia a exclusão de todos os crentes que possuíam televisão.

Na Copa do Mundo seguinte, não apenas ele próprio adquiriu uma TV para assistir aos jogos, como orava para que o Brasil fosse campeão.

Exemplos Menos Inocentes

Os exemplos menos inocentes constituem aqueles em que, os conteúdos recalcados inconscientes, vêm à tona da consciência como que um vulcão.

Nesses casos, a pessoa mais "santa" passa a ser exageradamente liberal; as que vêem pecado em tudo passam a não enxergar pecado em mais nada.

É comum tornarem-se "liberais", permissivas e promíscuas. Em alguns casos, infelizmente, tornam-se literalmente apóstatas e defensoras do ateísmo mais pagão.

Conclusão

Lutar contra o pecado é o espinho na carne de todos nós. Essa é uma luta, por vezes inglória; todavia deve sempre estar respaldada na Graça, pois somente pela Graça é que podemos ser salvos, unicamente pelos méritos de Cristo.

Isto posto, é dever de todos nós, pedirmos em nossas orações, que o Senhor nos conceda discernimento para reconhecermos e evitarmos o legalismo que anula a Graça.

E que os pastores legalistas reconheçam que estão emocionalmente doentes. Orem e procurem ajuda para, como Paulo, ficarem em paz com seus "Saulos de Tarso" interiores.

Que possam ficar tão emocionalmente sadios de tal maneira que, ao invés de esbravejarem com o dedo em riste, sejam capazes de pregar, obedecendo o ensino paulino, em Gálatas 6.1:

"Irmãos, se alguém for surpreendido nalguma falta, vós, que sois espirituais, corrigi-o com espírito de brandura; e guarda-te para que não sejas também tentado".

Tony Ayres

05 julho, 2009

COMO SE TORNAR UM PSICANALISTA?

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Frequentemente me deparo, em minha caixa de e-mails, com perguntas de pessoas que me escrevem, desejando saber como fazer para estudarem Psicanálise e se tornarem psicanalistas.

Por causa dessas perguntas, resolvi fazer esta postagem.

COMO PROCEDER

Basicamente, existem duas formas de se tornar um psicanalista: Pela primeira delas, você faz um curso de formação que pode levar vários anos e, para ser credenciado a clinicar, você precisa fazer uma análise didática e passa a limpo a sua vida, em numerosas sessões, nas quais você é analisado, deitado num divã, por um psicanalista experiente.

Sem a análise didática, não é possível tornar-se um psicanalista, uma vez que ela o ensina, vivencialmente, a técnica que irá utilizar para ajudar os seus futuros pacientes.

A segunda delas é através do caminho oposto: Você está enfrentando problemas emocionais, fobias, dificuldade de relacionamentos, ansiedades, outras neuroses, etc, etc. Então, você procura um psicanalista e começa um trabalho de análise que pode levar desde vários a muitos anos.

Durante esse tempo todo, você é como que "desprogramado" de suas vivências infantis inadequadas e "reprogramado" com uma nova visão, mais abrangente da vida e sobre você mesmo. Neste caso, você não precisa mais de uma "análise didática", uma vez que fez uma análise para valer e, a essa altura do campeonato, sabe tanto quanto o seu analista, a chamada técnica psicanalítica.

E DEPOIS?

Mesmo assim, você faz um curso de formação e se credencia para clinicar.

Em ambos os casos, quem credencia você é a Sociedade Psicanalítica a que você se vincular, desde que você seja considerado apto por ela.

Não existe faculdade ou curso de pós-graduação para formar psicanalistas. Em todo o mundo, você só se torna um deles, através de cursos livres (isso foi preconizado pelo próprio Freud).

Mas, para isso, você precisa ter um curso superior e passar por um dos dois processos acima descritos e ser vinculado à Sociedade Psicanalítica.

Curiosidade: No curso de Formação em Psicanálise (que varia de instituição para instituição), em geral, você estuda as seguintes matérias:

  • Psicanálise I (em nível básico)
  • Psicanálise II (em nível avançado)
  • Psicanálise III ( em nível profundo)
  • Psiquiatria
  • Psicopatologia
  • Psicofarmacologia
  • Neurofisiologia
  • Interpretação de Sonhos
  • Hipnoterapia
  • Sexologia

Não é fácil ser um psicanalista. É preciso muito estudo, muita dedicação, persistência e um forte desejo, que em Psicanálise, é conhecido como "desejo de psicanalista"

Se esse for o seu caso, boa sorte!

Tony Ayres

06 fevereiro, 2009

MEU MÉDICO ME DISSE QUE SOFRO DE NEUROSE. GOSTARIA DE SABER O QUE É ISSO.

neurose Sua dúvida é bastante justificável por conta do uso comum e generalizado que esta palavra ganhou. É muito comum expressões do tipo: “Fulana é neurótica”; “Sou neurótica por sorvete!”; “Quero viver sem neuras!”, etc.

Entretanto, a mesma palavra sendo usada por um psiquiatra ou um psicoterapeuta deixa de ter o sentido comum acima exemplificado para ganhar o sentido de uma patologia psicogência (de origem nas emoções).

Na Psicanálise, Freud, em uma de suas tópicas, conceituou o nosso aparelho psíquico como contendo três instâncias (partes): o ego, o superego e o id.

O ego corresponde ao nosso lado racional, equilibrado, analista,sensato e realista.

O superego equivale ao nosso sistema de valores, às nossas “tabuinhas da lei”, que herdamos de nossos pais ou figuras parentais, que nos diz o que está certo e o que está errado; o que podemos e o que não podemos fazer. É o nosso código moral.

Já o id corresponde tanto ao nosso lado criança (que quer tudo, que deseja tudo aqui e agora e não mede consequências) como ao nosso lado instintual (onde se localizam as nossas pulsões eróticas).

A neurose constiui sempre um conflito, normalmente entre um desejo do id e um julgamento do superego. NORMALMENTE, É UM CONFLITO INCONSCIENTE (embora possa ser consciente também).

Exemplificando. Suponha que um homem cristão casado, bom marido e bom pai de família, ao conhecer uma mulher, nova em sua comunidade, de repente começa a sentir uma profunda atração por ela. O responsável por essa atração foi o seu id.

No entanto, sendo uma pessoa honesta e que ama sua esposa, ele pensa: “Não posso e não devo sentir atração por essa mulher, vou afastar-me dela!”.

Ora, se ele for uma pessoa equilibrada, tudo acabará aí e não haverá maiores consequências. Mas, se ele possuir uma estutura de caráter mais ou menos obssessiva; a atração sexual pela mulher continuará latejando dentro dele,assim como a censura do superego continuará a lhe dizer que não pode alimentar isso, pois é errado e é pecado.

Se o conflito não tiver solução, e continuar a guerra entre os desejos do id e as reprovações do superego, estará se cristalizando um conflito que se enquista dentro dele e estabelece,então, A NEUROSE, que obviamente, precisa ser trazida à tona e tratada.

Uma neurose NÃO TRATADA e enquistada por muito tempo acaba por fazer o próprio ego seu refém e, se não solucionada emocionalmente, começa a produzir somatizações (sintomas físicos) tais como: cegueira ou paralisia passageira, dores no estômago, taquicardia, dermatite, enxaqueca e muitos outros.

Como você pode perceber, uma neurose verdadeira é algo bem mais sério do que se imagina.

Toni Ayres

10 novembro, 2008

DÁ PARA MISTURAR PSICOTERAPIA COM CRISTIANISMO?

Quem conhece aquilo que se convencionou chamar de blogosfera (algo assim como o universo dos blogs), sabe que essa ferramenta interativa se tornou a nova coqueluche da Internet.

E nela, as pessoas têm oportunidade de expressar seus dotes artísticos, sua formação intelectual, sua criatividade, suas inclinações, suas aptidões ou qualquer outra coisa que desejar.

Mas existem também aqueles que enxergam no blog uma oportunidade de serviço, ou seja, uma maneira de utilizar essa modalidade de página da web a fim de prestar um serviço que vá de encontro às necessidades de outras pessoas, nos mais diferentes pontos do país ou mesmo do planeta.

Seria mais ou menos assim como fazer do blog um instrumento que fizesse as vezes do antigo radioamadorismo (embora este ainda exista), no sentido de fazer dele mais uma forma de se oferecer solidariedade a outros seres humanos, nas mais diferentes áreas de atuação.

Enquanto psicanalista clínico, formado pela Escola de Psicanálise do Brasil e vinculado à Sociedade Brasileira Ortodoxa de Psicanálise e adepto da Psicoterapia Breve de Inspiração Psicanalítica, vejo, nessa modalidade de página da Internet uma oportunidade de ajudar as pessoas.

Claro que não no sentido de se fazer uma análise ou psicoterapia convencional, onde o paciente estabelece um contrato verbal com o terapeuta e comparece todas as semanas para a sessões psicoterápicas, pois isso seria inviável virtualmente.

Mas sim, num sentido de orientação, de aconselhamento, a partir da perspectiva de alguém que conhece um pouco mais do universo emocional e da psiquê humana e que, por isso mesmo, pode ser útil como fonte de ajuda para quem precisa e não sabe a quem recorrer.

Seria, guardadas as devidas proporções, orientar as pessoas como faz o psquiatra Flávio Gikovate em seu programa semanal na rádio CBN de São Paulo, intitulado "No Divã do Gikovate". Com conhecimento técnico, poucas palavras e uma boa dose de bom senso se pode fazer muito por alguém numa situação mais aflitiva.

Terminando essa necessária postagem explicativa original cumpre ressaltar que o nome Psicoterapeuta Cristão se deve ao fato de minha formação cristã evangélica, de minha experiência com pessoas oriundas de igrejas evangélicas e também, e principalmente, para demonstrar o fato de que, quando se crê, não existe, absolutamente, qualquer incompatibilidade entre o Cristianismo e a Psicanálise.

Toni Ayres