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15 novembro, 2011

CARTA A UMA QUERIDA AMIGA QUE RESOLVEU FAZER PSICOTERAPIA

 

terapia

“Fiquei contente ao saber que você está fazendo psicoterapia. Parece-me que você decidiu "passar a vida a limpo"e, pelo jeito, já descobriu algumas coisas importantes.

Quero lhe dizer que, fazer terapia quase nunca deixa de nos trazer coisas tristes, pois, ela nos revela "aquele lado feio e negro" da nossa vida que nunca quisemos ou pudemos enxergar. Ela nos mostra quantos trastes inúteis acumulamos nos "porões" da nossa alma durante anos e anos.

Mas esse "encontro com o próprio eu", por mais sofrido que seja, é compensador, acredite.

Chega uma hora na vida em que não desejamos mais mentiras, não queremos mais fantasias. É o momento de enfrentarmos os nossos próprios fantasmas e de ganharmos forças para vencê-los e seguir em frente.

Sabe, os budistas dizem que a infelicidade dos homens existe porque eles são vítimas do "desejo de ignorar". A psicanálise, por outro caminho, descobriu que eles têm o "desejo de não querer saber".

Por isso, existe esse enfrentamento na terapia: temos que vencer as resistências e conhecer a verdade sobre nós mesmos. Aí, num sentido psicológico, cumprem-se as palavras de Jesus:"E conhecereis a verdade e a verdade vos libertará".

E já que me referi à verdade ou às verdades, deixe-me dizer-lhe mais uma que, por certo você já descobriu, mas, possivelmente, ainda não "lhe caiu a ficha". Você me diz, no e-mail, que quer ter uma vida sólida (você acha que somente uma "vida sólida" a fará feliz).

Mas...Rubem Alves há muito tempo escreveu (e eu concordo com ele) que "vida sólida" não existe! Ele diz que nós acreditamos que a nossa vida seja forte como uma esfera de aço. Na verdade, porém, ela é frágil como uma bolha de sabão! Basta um ventinho mais forte e essa bolha estoura.

Isso é revelador porque nos dá coragem de fazer o que acreditávamos não poder! Ensina-nos a viver pequenas coisas como grandes feitos e a valorizar cada aparentemente "pequena" conquista. Mostra-nos que devemos parar de perseguir "o ótimo" que, como a linha do horizonte, está sempre longe; e a aceitarmos "o bom", que já está pertinho de nós.

Rubem Alves também nos ensina que devemos ser corajosos como a aranha. A aranha tem coragem de lançar-se no abismo, confiando apenas num fio! Sim, porque ela acredita no fio de sua própria teia, ela lança-se para mais fundo e para mais longe, mesmo em meio à escuridão.

O  Almir Klink, entrevistado pelo "Fantástico" deste último domingo, deixou claro que ele não precisa de dinheiro, não precisa de propriedades, não precisa de "status"não precisa de "poder" para ser feliz. Ele só precisa ser livre para viajar (entenda "velejar") e, velejando, ele atravessou, sozinho, os oceanos, chegando ao lugar que ele mais gosta: a Antártida.

Que tal você discutir com seu/sua terapeuta qual seria a "sua Antártida"?

Torço por seu crescimento e felicidade!”

Tony Ayres

23 setembro, 2009

Nossos delatores internos

764451215162383 Sempre me lembro daquele livro velho de fábulas, já se desmanchando de tanto ser manuseado, que era uma das poucas leituras que eu podia dar-me ao luxo, na minha infância austera de menino pobre.

Uma das estórias de que eu mais gostava chamava-se "Os Três Grãos de Milho". Ela relatava como um pobre diabo veio pedir esmola à porta de um jovem fazendeiro que acabara de herdar a fortuna do pai.

O arrogante moço arrancou de uma espiga três mirrados grãos e atirou-os indolentemente ao inoportuno pedinte, proferindo a frase que se tornou o título da fábula:

"Tome lá esses três grãos de milho!"

O restante da estória narrava como aquele pobre plantara, diligentemente, os três grãos; e dos pés de milho que deles germinaram, colheu várias espigas, que novamente plantou e, assim, persistentemente, de sucessivos plantios e colheitas, tornou-se um próspero agricultor.

O pobre pedinte veio a ficar muito rico, enquanto o rico, que lhe atirara os grãos, preguiçoso que era, viu sua fazenda ser tomada por ervas daninhas, e, por fim, perdeu tudo, por sua estupidez.

Como se vê, essa estória fala de extremos. O pobre esmoleiro torna-se rico fazendeiro, enquanto o afortunado herdeiro torna-se um "João Ninguém".

Essa é, na verdade, uma metáfora muito apropriada à nossa psiquê. Os conflitos mais íntimos do ser humano acontecem simplesmente porque em sua mente habitam, de lados diferentes, o ex- esmoleiro e o falido fazendeiro, que representam as forças poderosas, mas opostas, das instâncias consciente e inconsciente, que todos nós possuímos.

Aliás, se todos nós levássemos mais a sério a importância dessa realidade, seríamos muito mais cuidadosos com nossas palavras, nossos discursos e nossos escritos.

E POR QUE DEVEMOS TER ESSA SERIEDADE?

Porque nós nos projetamos em nossas palavras (por isso, Jesus disse que "a boca fala do que está cheio o coração"). Só que, sem que percebamos, nossas palavras nos denunciam também (por isso, Jesus disse que "pelo fruto se conhece a árvore).

Nesse ponto voltamos aos dois extremos que habitam a nossa mente e que se opõem entre si.

E, ONDE ESTÁ A PROBLEMA AÍ?

O problema está exatamente na expressão "extremos".

Os extremos são os "delatores" das verdades mais íntimas de cada um. Isso significa que todo aquele que defende suas opiniões, preferências, ideologias, etc; e, principalmente, aqueles que condenam atitudes alheias com "unhas e dentes", com veemência excessiva e com total inflexibilidade podem estar, simplesmente, "confessando suas próprias culpas".

Assim, o homem que se autodenomina ético e prega para o mundo inteiro a ética, no fundo, provavelmente é um ser sem ética alguma.

Da mesma forma, os que vivem, a toda e qualquer oportunidade, condenando o homossexualismo, provavelmente são homossexuais "enrustidos".

Creio ser bastante razoável refletirmos um pouco sobre isso porque essa verdade é reveladora.

Quem tem opinião formada sobre qualquer assunto simplesmente emite essa opinião, quando alguém a solicita. Não tem nenhuma necessidade compulsiva de ficar apregoando-a aos quatro ventos.

Tony Ayres