Sempre me lembro daquele livro velho de fábulas, já se desmanchando de tanto ser manuseado, que era uma das poucas leituras que eu podia dar-me ao luxo, na minha infância austera de menino pobre.
Uma das estórias de que eu mais gostava chamava-se "Os Três Grãos de Milho". Ela relatava como um pobre diabo veio pedir esmola à porta de um jovem fazendeiro que acabara de herdar a fortuna do pai.
O arrogante moço arrancou de uma espiga três mirrados grãos e atirou-os indolentemente ao inoportuno pedinte, proferindo a frase que se tornou o título da fábula:
"Tome lá esses três grãos de milho!"
O restante da estória narrava como aquele pobre plantara, diligentemente, os três grãos; e dos pés de milho que deles germinaram, colheu várias espigas, que novamente plantou e, assim, persistentemente, de sucessivos plantios e colheitas, tornou-se um próspero agricultor.
O pobre pedinte veio a ficar muito rico, enquanto o rico, que lhe atirara os grãos, preguiçoso que era, viu sua fazenda ser tomada por ervas daninhas, e, por fim, perdeu tudo, por sua estupidez.
Como se vê, essa estória fala de extremos. O pobre esmoleiro torna-se rico fazendeiro, enquanto o afortunado herdeiro torna-se um "João Ninguém".
Essa é, na verdade, uma metáfora muito apropriada à nossa psiquê. Os conflitos mais íntimos do ser humano acontecem simplesmente porque em sua mente habitam, de lados diferentes, o ex- esmoleiro e o falido fazendeiro, que representam as forças poderosas, mas opostas, das instâncias consciente e inconsciente, que todos nós possuímos.
Aliás, se todos nós levássemos mais a sério a importância dessa realidade, seríamos muito mais cuidadosos com nossas palavras, nossos discursos e nossos escritos.
E POR QUE DEVEMOS TER ESSA SERIEDADE?
Porque nós nos projetamos em nossas palavras (por isso, Jesus disse que "a boca fala do que está cheio o coração"). Só que, sem que percebamos, nossas palavras nos denunciam também (por isso, Jesus disse que "pelo fruto se conhece a árvore).
Nesse ponto voltamos aos dois extremos que habitam a nossa mente e que se opõem entre si.
E, ONDE ESTÁ A PROBLEMA AÍ?
O problema está exatamente na expressão "extremos".
Os extremos são os "delatores" das verdades mais íntimas de cada um. Isso significa que todo aquele que defende suas opiniões, preferências, ideologias, etc; e, principalmente, aqueles que condenam atitudes alheias com "unhas e dentes", com veemência excessiva e com total inflexibilidade podem estar, simplesmente, "confessando suas próprias culpas".
Assim, o homem que se autodenomina ético e prega para o mundo inteiro a ética, no fundo, provavelmente é um ser sem ética alguma.
Da mesma forma, os que vivem, a toda e qualquer oportunidade, condenando o homossexualismo, provavelmente são homossexuais "enrustidos".
Creio ser bastante razoável refletirmos um pouco sobre isso porque essa verdade é reveladora.
Quem tem opinião formada sobre qualquer assunto simplesmente emite essa opinião, quando alguém a solicita. Não tem nenhuma necessidade compulsiva de ficar apregoando-a aos quatro ventos.
Tony Ayres